Amante de rádio-escuta, chargista sintoniza emissoras de todo o mundo à beira do Guaíba

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Morador do Centro Histórico, o chargista costuma “pescar“ ondas sonoras também na Orla Moacyr Scliar, no trecho da Usina do Gasômetro. O horário escolhido, antes das 7h, leva em conta o movimento mais tranquilo do início do dia.

Além da antena loop blindada, uma pesquisa na web ajuda a identificar qual a emissora da frequência encontrada no display do pequeno rádio. O som limpo surpreende em uma distância superior a 18 mil quilômetros desde Pequim, capital da China, até Porto Alegre.

A dedicação ao dexismo, como os adeptos de captar transmissões de sinais longínquos chamam a atividade, começou na infância, quando vivia no Rio de Janeiro. O garoto do bairro São Cristóvão, zona norte fluminense, aproveitava o equipamento de ondas curtas para ouvir a programação que partia da União Soviética.

Com bom humor, relembra o temor da mãe, em um período nebuloso do Brasil: a repressão instalada no golpe de 1964, que acabou com a democracia no país e levou para a cadeia centenas de brasileiros sob acusações de vinculação com o comunismo.

— A Rádio Moscou transmitia em português e tinha muita troca de correspondência através de cartas dos ouvintes. Falei para a minha mãe que eu queria mandar, mas ela não deixou porque tinha medo da ditadura militar — relembra enquanto ouve uma rádio clandestina sul-coreana, propagandista de conteúdo anticomunista.

A possibilidade de ouvir outros veículos de comunicação pela internet não atrai o amante do radioamadorismo.

— Ouvir uma emissora pela internet é como pescar em um aquário. O legal é levar uma antena, pescar as ondas, as estações difíceis. A aventura é essa — compara.

Carlos Latuff tem destaque internacional por seus cartoons políticos e de denúncia a ataques à população marginalizada. No seu perfil do Instagram (@carloslatuff) se define como “cronista visual da barbárie”, e apresenta charges críticas sobre a falta de comando de governantes a frente da pandemia de coronavírus; ao presidente norte-americano, Donald Trump, e outras inúmeras menções ao governo Bolsonaro, além de ilustrações que relembram casos de racismo e violência policial.

Sentado ao lado de uma antena em arco conectada a um radinho de ondas curtas, o chargista Carlos Latuff, 52 anos, capta o sinal de emissoras dos pontos mais distantes do mapa.

Radioamador, o artista carioca se aproveita da geografia da orla do Guaíba, especialmente na faixa de recuo próximo ao museu Iberê Camargo, para sintonizar transmissões que partem de comunicadores a frente de microfones de continentes como América Central e Ásia, exemplos demonstrados à reportagem de GaúchaZH na manhã desta segunda-feira (10).

A viagem de Latuff, no entanto, já atingiu ilhas da Oceania até e navios russos.

—Já captei transmissões da marinha russa em código morse — conta, orgulhoso.

Em novembro de 2019, uma de suas obras foi arrancada de uma exposição que retratava o Dia da Consciência Negra, realizada no Congresso Nacional, em Brasília. O autor do ataque que avariou a pintura foi o deputado federal Coronel Tadeu (PSL-SP), irritado com o desenho: um jovem negro algemado, caído ao chão, vestindo uma camisa verde e amarela. Ao fundo, a imagem mostra um policial branco com uma arma na mão, ainda com o cano fumegante após o disparo que atingiu a vítima. O parlamentar alegou que “negros são mortos por policiais porque são maioria no tráfico”, fala que deveria ser uma defesa ao ato anterior.

Em Porto Alegre, Latuff também foi alvo de tentativa de censura, quando participou de uma exposição junto a outros artistas. Então presidente da Câmara de Vereadores, Mônica Leal (PP) vetou a mostra O Riso é Risco: Independência em Risco — Desenhos de Humor. Após alegar que as charges ofendiam o presidente Jair Bolsonaro, a parlamentar foi obrigada pela Justiça a expor os quadros novamente.

Entre a projeção mundial e o amor pelo rádio, passando pelas polêmicas dos seus desenhos carregados de opinião, o carioca radicado em terras gaúchas parece dividido.

— Se não fosse chargista, eu seria, com certeza, radialista. Gosto muito da latinha — afirma, lamentando que após o início do isolamento social imposto para frear a disseminação do coronavírus, teve de reduzir a “pesca” de comunicação pelas ondas sonoras.

 

Por Thiago Boff do site GauchaZH